quinta-feira, 2 de julho de 2026

Potência de Sínteses: uma hipótese sobre a origem estrutural da inteligência

 

 

Resumo

Este ensaio propõe a hipótese de que aquilo que convencionalmente chamamos de inteligência não constitui uma faculdade originária do sujeito, mas um efeito observável de uma estrutura mais fundamental, aqui denominada Potência de Sínteses. Essa potência não se reduz ao raciocínio lógico, à memória, à criatividade ou ao desempenho intelectual. Ela corresponde à capacidade estrutural de produzir organizações de sentido progressivamente mais complexas, articulando percepção, afetos, linguagem, memória e experiência. Sob essa perspectiva, a inteligência deixa de ser a causa e passa a ser uma das manifestações possíveis dessa potência originária.

 

O problema da inteligência

As teorias contemporâneas sobre altas habilidades e superdotação descrevem, em geral, manifestações da inteligência: rapidez de aprendizagem, raciocínio abstrato, criatividade, memória ou resolução de problemas. Embora úteis para identificar diferenças entre indivíduos, essas descrições permanecem fenomenológicas.

Elas descrevem o efeito, mas pouco dizem sobre sua origem estrutural. A questão que orienta este ensaio é distinta, pois indaga sobre qual estrutura torna possível aquilo que chamamos de inteligência? Essa mudança de perspectiva acaba deslocando o foco da quantidade de inteligência para a natureza da capacidade que a produz.

 

A hipótese da potência de sínteses

Denomina-se potência de sínteses a capacidade estrutural de organizar elementos inicialmente dispersos em configurações coerentes de sentido, preservando sua complexidade.

Essa potência não consiste em acumular informações, nem em resumir conteúdos. Sintetizar significa estabelecer relações inéditas entre elementos heterogêneos, produzindo uma organização que não existia anteriormente.

Desse modo, a síntese não elimina as diferenças; ela as integra num operação anterior e posterior: percepção, relação, síntese, criação, conhecimento.

Portanto, teremos: Potência: a capacidade estrutural de estabelecer relações e produzir sínteses; Operação: o ato concreto de sintetizar, analisar, abstrair, simbolizar e criar; Manifestação: os efeitos observáveis, como aprendizagem acelerada, criatividade, resolução de problemas, invenção, produção artística ou científica.

 E, por isso, a potência de sínteses manifesta-se em diferentes domínios: na ciência, na arte, na filosofia, na clínica, na liderança, na estratégia, na invenção e na vida cotidiana. O que varia não é a estrutura da potência, mas o campo em que ela se expressa. 

 

Antes e depois da intelectualidade

A potência de sínteses situa-se simultaneamente antes e depois daquilo que chamamos de intelectualidade.

Está antes porque torna possível o pensamento complexo. Nenhum conceito pode ser elaborado sem que múltiplos elementos tenham sido previamente articulados.

Está depois porque continua reorganizando permanentemente aquilo que já foi compreendido. Cada nova experiência modifica a estrutura das compreensões anteriores, produzindo novas sínteses.

A intelectualidade seria, portanto, apenas uma manifestação particular dessa potência.

 

A percepção como ato simbólico

Uma consequência importante dessa hipótese consiste em rejeitar a ideia de que primeiro percebemos e depois simbolizamos. A percepção já é um acontecimento simbólico. 

O sujeito não recebe dados neutros para, posteriormente, interpretá-los. Desde o primeiro contato com o mundo, a percepção organiza diferenças, estabelece relações, destaca figuras, produz relevâncias e constitui sentidos.

A simbolização não sucede à percepção; ela é constitutiva da própria percepção. 

Se essa hipótese for correta, então diferenças na potência de sínteses implicam diferenças estruturais na própria maneira como os sujeitos percebem o mundo. 

Não se trata apenas de pensar de modo diferente, mas de perceber relações que permanecem invisíveis para outros.

 

Inteligência como efeito

Sob essa perspectiva, a inteligência deixa de ocupar o lugar de princípio explicativo, pois ela se torna um efeito.

Do mesmo modo, criatividade, invenção, pensamento estratégico, capacidade clínica ou produção científica podem ser compreendidos como manifestações diversas de uma mesma estrutura organizadora.

Assim, indivíduos tradicionalmente classificados como superdotados talvez não possuam simplesmente "mais inteligência", mas uma potência de sínteses estruturalmente distinta, capaz de produzir reorganizações simbólicas mais amplas e complexas.

 

Consequências teóricas

A hipótese da potência de sínteses desloca a investigação das diferenças quantitativas para diferenças qualitativas. Ela convida a compreender determinados sujeitos não apenas como indivíduos de elevado desempenho cognitivo, mas como portadores de uma forma singular de organização da experiência.

Nesse contexto, a inteligência deixa de ser o fundamento do pensamento e passa a ser um de seus efeitos observáveis. 

Mais do que uma teoria da superdotação, essa hipótese propõe uma nova pergunta antropológica, pois existiria uma estrutura originária da qual inteligência, criatividade, simbolização e produção de conhecimento são apenas manifestações particulares?

Se essa pergunta puder ser respondida afirmativamente, a potência de sínteses poderá constituir um conceito capaz de reorganizar nossa compreensão da inteligência, deslocando-a do campo do desempenho para o campo da constituição do sujeito. 

 

Mhauro Garcia

Psicanalista

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

A Mulher Como Parâmetro de Poder

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Na psicanálise lacaniana, o falo é o significante da falta, organizando o desejo em torno do “ter ou não ter”. Mas e se tomarmos a mulher como parâmetro com um novo olhar, nome e sentido? Eis o Metafalo!

Metafalo é, ao mesmo tempo, um quadro significante e uma operação. Ele não nega o falo, mas o ultrapassa, o transcende. Enquanto o falo remete à castração, o metafalo aponta para o que a mulher sempre foi, sem ter sido nomeado: a Base de Aporte para o próprio falo. Ou seja, a mulher é o suporte real que permite ao significante fálico emergir.

O que fundamenta o metafalo é a condição inerente do ser que nasce e morre com útero, hormônios, ciclos, gestação, menopausa. Ou seja, um corpo marcado por uma temporalidade biológica não linear, por ritmos que escapam ao controle voluntário e à ordem fálica do “ter ou não ter”.

Isso diferencia radicalmente o metafalo do falo. Este é um significante imaterial, universal, atemporal e funciona na lógica presença/ausência. Já o metafalo carrega a materialidade do que se repete e se transforma: sangramento que não se comanda, fecundidade que se esgota, um corpo que envelhece de modo diferente do corpo masculino.

Isso redefine a posição feminina, pois a mulher não se define pela falta, mas por estar mais próxima de um conteúdo do Real do que da fantasia do Falo. Ela é o Outro de maneira objetiva, a condição de possibilidade do discurso e do desejo masculino, contudo sem ter, até o momento, a sua função de poder que jamais foi simbolizada. O metafalo é a tentativa de dar um nome a esse poder não fálico.

Por isso, como operação, o metafalo consiste em extrair significante desse Real sem reduzi-lo à ausência. Trata-se de construir um quadro onde a mulher é um parâmetro, que não organiza a falta, mas a presença como fundo.

Clinicamente, isso desloca a angústia feminina da castração para a impossibilidade de nomear seu próprio poder. Politicamente, implica um feminismo não da igualdade de ter o falo, mas da nomeação do Real feminino.

O metafalo é, portanto, um convite a pensar a diferença essencial para além da lógica fálica, com a mulher como chave, não como exceção.

 

Mhauro Garcia.

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Espírito como Dinâmica de Intenções: Uma Ponte entre Psicanálise e Sensibilidade Espiritual

 

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Este artigo propõe uma formulação conceitual de “espírito” desvinculada de pressupostos religiosos tradicionais, entendendo-o como um campo dinâmico de motivações e predisposições, em grande parte inconscientes, que orientam o comportamento humano. A tese articula elementos da psicanálise com uma perspectiva espiritualista baseada na sensibilidade às relações de causa e efeito entre o mundo interno e externo.

A noção de espírito, frequentemente associada a sistemas religiosos ou metafísicos, pode ser reinterpretada como uma estrutura dinâmica da experiência humana. Em vez de tratá-lo como substância ou entidade transcendente, propõe-se compreendê-lo como um conjunto organizado de intenções, muitas das quais operam fora da consciência imediata.

Essa abordagem permite aproximar o conceito de espírito do campo da psicanálise, especialmente no que diz respeito à centralidade do inconsciente e à determinação não evidente das ações humanas.

 

ESPÍRITO COMO CAMPO DE INTENÇÕES

Dessa forma, podemos definir o Espírito como um conjunto dinâmico de motivações, predisposições e vetores de desejo, majoritariamente inconscientes, que operam em diferentes níveis de consciência e orientam o comportamento do sujeito. Essa definição implica três aspectos fundamentais:

  • Não unidade: o espírito não é homogêneo, mas composto por forças múltiplas;
  • Inconsciência predominante: grande parte dessas forças não é acessível diretamente;
  • Direcionalidade: essas forças tendem a orientar ações e interpretações

Assim, o espírito não é uma essência fixa, mas um sistema em movimento.

  

GRAUS DE CONSCIÊNCIA E DINÂMICA INTERNA

As intenções que compõem o espírito não operam em um único nível. Elas se distribuem em diferentes graus de consciência, que não formam uma hierarquia simples, mas uma rede dinâmica de influência.

Nesse contexto:

  • o consciente não domina plenamente o inconsciente;
  • conflitos internos são estruturais, não acidentais;
  • decisões conscientes frequentemente são efeitos de processos prévios;

O sujeito, portanto, não é plenamente transparente a si mesmo.


CRITÉRIOS DE VALOR: MORAL, SIMBÓLICO E MATERIAL

 O espírito não atua de forma neutra. Ele é organizado por sistemas de valor que incluem:

  • valores morais (normas internalizadas, ideais);
  •  
  • valores simbólicos (linguagem, cultura, reconhecimento);
  •  
  • valores materiais (necessidades concretas, sobrevivência, desejo de posse).
  •  

Esses critérios não são necessariamente coerentes entre si. Pelo contrário, frequentemente entram em conflito, produzindo tensões que se manifestam em escolhas, sintomas e repetições.

 

 REALIZAÇÃO E REPETIÇÃO

Embora o espírito tenda à realização, entendida como satisfação ou coerência interna, ele também está sujeito à repetição de padrões, inclusive aqueles que produzem sofrimento.

 Isso indica que:

 - nem toda ação busca bem-estar;

há fidelidade inconsciente a estruturas internas; 

o sujeito pode sustentar aquilo que o limita. 

A realização, portanto, não é garantida, mas disputada internamente.

 

RELAÇÃO ENTRE INTERIOR E EXTERIOR

Uma das implicações centrais desta tese é a rejeição de uma separação rígida entre mundo interno e externo.

Propõe-se que:

  • ações externas são efeitos de configurações internas;
  • o ambiente também influencia e reorganiza essas configurações;
  • há uma circularidade entre sujeito e mundo.

 O espiritualista, nesse sentido, é aquele que desenvolve sensibilidade para perceber essas relações de determinação mútua.

 

 A PSICANÁLISE COMO MÉTODO DE EMERGÊNCIA

A psicanálise é compreendida aqui não apenas como escuta, mas como um método que permite a emergência dessas estruturas de intenção.

Importante destacar:

  • não se trata de “extrair” conteúdos prontos;
  • o sentido se constrói na fala;
  • o inconsciente se manifesta através de formações simbólicas (lapsos, sintomas, narrativas).
  •  

A escuta, portanto, não é passiva — é o meio pelo qual o invisível ganha forma.

  

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 A redefinição de espírito proposta neste artigo permite uma aproximação rigorosa entre espiritualidade e psicanálise, sem recorrer a pressupostos místicos ou reducionismos biológicos.

O espírito, entendido como campo de intenções inconscientes organizadas por valores e manifestadas em efeitos, torna-se uma ferramenta conceitual para compreender:

  • o comportamento humano;
  • o sofrimento psíquico;
  • a relação entre sujeito e mundo.

Mais do que uma entidade, o espírito passa a ser um modo de leitura da experiência.

 

 NOTA EM ABERTO

A possível relação entre essa dinâmica de intenções e processos neurobiológicos, como a atividade neuronal e suas propriedades eletroquímicas, permanece como campo de investigação futura. Qualquer tentativa de equivalência direta exige cuidado conceitual e base empírica consistente.

 

Mhauro Garcia 

Palavras-chave: espírito, inconsciente, intenção, psicanálise, subjetividade, valores, comportamento.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Perigo Mental e a Segurança de Vida

 

Com a propagação da inexistência da Verdade, com a desconstrução da ética e com o subjetivismo assumindo o lugar do concreto, as referências que orientam as percepções se perdem em meio à diversificação das sensações para compreender a realidade.

São tantas alternativas volúveis, que a ideia de liberdade se converte em uma prisão no vazio de uma modernidade líquida.

Como ilhas porosas flutuantes de um arquipélago, o que falta sempre será o porvir das ilusões difusas que se renovam e nunca se realizam.
Resulta em sentimentos sem lastro, fragmentados, à deriva de um sentido que já não se sustenta.

Nesse momento histórico, não se trata mais de dar o que não se tem a quem não quer, mas de criar acesso para troca de afeto.

Sim, afeto, esse elemento abstrato, mas de uma consistência que transcende à concretude do vazio.

É pelo afeto que as pessoas se sentem validadas e vivas por um propósito; ocupando uma posição significativa nas relações humanas.
Onde há afeto, há reconhecimento; e onde há reconhecimento, há pertencimento.

 No entanto, na ausência do reconhecimento, as autoafirmações, através de ensaios emocionais que se transformam em comportamento, demonstram a intenção primordial de validação existencial.

São tentativas de dizer “eu existo”, na singularidade, diante de uma cultura que se afasta da experiência genuína do encontro.

Somente o utilitarismo egoico é capaz de descartar o afeto, pois nesse caso os vínculos não se perdem. E quando essa função se esgota, a convivência se dissolve.

Lamentavelmente, para os que nunca receberam afeto, o vazio é mais profundo, pois falta-lhe a lembrança consoladora de um aconchego que dê esperança ao reencontro com o que se perdeu.

Desse contexto, é possível deduzir o óbvio: afeto não se descarta, acumula-se. Diante de um vazio estrutural inerente à condição humana, o afeto é a única forma de compensar e preencher o nada da existência.

Sem ele, os sentidos flutuam em busca de um porto seguro para os ideais.

Enfim, talvez a questão não seja apenas descobrir que as pessoas vivem uma crise, mas se podem, de fato, suportar a existência sem receber afeto.

Um Pouco da História

 

Essa é a origem da rede social que hoje está tão comum.

A história dessa matéria o foi resultado de uma pesquisa do repórter junto aos projetos propostos à Secretaria de Desenvolvimento Sócio Econômico do Estado. Na época da reportagem, que saiu em vários canais de televisão e na internet, assim como nos anos anteriores, tratar sobre a sua realização era bem difícil. A diferença para hoje é que a dificuldade amenizou só um pouquinho.


Rede Social era um conceito utilizado pela sociologia para, de forma simples, designar a posição de influência de uma pessoa sobre o grupo. Era bem restrito aos meios científicos e, portanto, incomum para o senso comum. 

Veja a data da publicação dessa matéria de jornal.  Ela foi concebida ainda em 1995 e registrada em cartório em 1998.

 Acredite! Fiz de tudo para realizar esse projeto. Até enviei para outros países da Europa para obter recursos. 

Enfim... 

 


 

Também consegui recuperar essas duas entrevistas feitas para a TV. Estou tentando recuperar a entrevista no programa da TV Diário. No vídeo abaixo tem o programa da Maísa Vasconcelos, na Tv Jangadeiro e o Jornal da TVC. Não recordo do nome da apresentadora. 

 


 

Olha que legal!

 

terça-feira, 13 de maio de 2025

Minha Experiência com o Espelho do Vale Esquecido

 

Eu vivi num vale isolado, cercado por montanhas tão altas que pareciam tocar o céu. Esse era o famoso Vale Esquecido. E tinha esse nome, não porque seus habitantes tivessem perdido a memória, mas porque muitos preferiam esquecer a sua existência. Por isso eu ficava muito curioso.

Quando falavam nele, diziam que lá dentro, bem no coração do vale, havia um espelho mágico, envolto em lendas e mistérios. Com certo medo, eu ouvia dizer que esse espelho não refletia a imagem de quem olhasse para ele, mas sim, refletia a essência de sua alma. Era quando eu sentia arrepios, aumentando minha curiosidade.

Desde criança, eu ouvia histórias sobre o espelho, mas nunca me atrevi a procurá-lo. Mas como sou muito curioso, com um coração inquieto, sempre me perguntava sobre o propósito da minha vida, sobre minhas paixões e meus medos, mas as respostas não me agradavam.

Então eu pensei: Será que a minha missão de vida é encontrar esse espelho e me tornar um herói?

Um dia, cansado de viver em dúvida, eu decidi enfrentar meus medos e partir em busca do espelho. Eu sabia que a jornada seria difícil, pois os desafios testariam a minha força física, a minha mente e o meu coração. Mas segui determinado!

No primeiro dia da minha jornada, eu encontrei um rio turbulento. As águas eram tão violentas que pareciam gritar de raiva. Assustado, pensei em voltar, mas então ouvi uma voz sussurrar: "Para eu conseguir atravessar esse rio, eu devo compreender a origem dessa turbulência."

Então eu respirei fundo, refleti e percebi que, assim como o rio, muitas vezes eu era dominado por sentimentos confusos. Então eu respirei fundo mais uma vez e me acalmei. De repente, as águas se tornaram mais serenas, foi quando pude atravessar.

No segundo dia, eu cheguei numa floresta densa e escura. As árvores eram tão altas que bloqueavam a luz do sol, fazendo eu me sentir perdido. Sem que eu esperasse, novamente, a voz sussurrou: "A escuridão que me cerca é um reflexo do que eu carrego dentro de mim."

Então eu fechei os olhos e enfrentei meus medos mais profundos: o medo de não ser bom o suficiente, de falhar, de nunca encontrar o meu lugar no mundo. Quando abri os olhos novamente, a floresta parecia menos assustadora, e eu encontrei um caminho iluminado por uma luz suave. Animado, segui em frente!

No terceiro dia, eu finalmente cheguei ao espelho. Que emoção! Ele estava em uma clareira, envolto por uma aura brilhante. Com o coração acelerado, eu me aproximei dele e olhei para o reflexo. A princípio, eu vi apenas uma névoa, mas, aos poucos, a imagem começou a se formar. Eu não vi meu rosto, mas sim cenas de minha vida: momentos de alegria, de tristeza, de força e de fraqueza. Vi minhas escolhas, meus erros e minhas conquistas. E, no centro de tudo, percebi uma luz que nunca se apagava – era a minha verdadeira essência, pura e imutável.

Confuso, perguntei: esse sou eu? É isso?

E mais uma vez, a voz sussurrou: "O autoconhecimento não está em buscar respostas prontas, mas em fazer as perguntas certas. Como um raio, compreendi que eu sou mais do que meus medos, mais do que minhas dúvidas. Eu sou a luz que guia o meu próprio caminho."

Reflexivo, eu retornei do vale completamente diferente, transformado. Sabia que ainda não tinha todas as respostas sobre mim, mas, pela primeira vez, senti-me confortável em viver com minhas perguntas. E, mais importante, compreendi que o espelho não estava no vale, mas dentro de mim. E ele só apareceu quando me deparei comigo no meio daquele ambiente.

Voltei para casa fortalecido lembrando daquela experiência que deixou de ser um mistério para mim. Pelo contrário, tornou-se um lembrança permanente de que eu sou o vale esquecido e que o autoconhecimento é uma jornada sem fim para encontrar o espelho. Mas que a cada passo dado nessa caminhada, eu me torno mais completo.

 

Ato de Saber

Mhauro Garcia

 

sábado, 3 de maio de 2025

O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo

 

 

O filme “O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo” contém símbolos maravilhosos para representar a vida. Apurando o olhar, podemos perceber essa trajetória que, no íntimo, acaba sendo a nossa. Olha só!

Simbólico e lindo demais!

Cheio de mensagens fantásticas!

- O menino perdido (a busca das pessoas).

- O gelo representa a dureza e a frieza da vida.

- A toupeira é o inconsciente do menino.

- O bolo, a compensação prazerosa diante das frustrações.

- O menino deseja Ser algo na vida (gentil) como o oposto da dureza da vida.

- O Rio representa a vida que não para, é fluxo contínuo. (O menino disse: Tudo acontece dentro da gente.)

- A casa é o ideal de vida com segurança. A busca de retornar para sua origem.

- A raposa, uma adversidade perigosa, pode se tornar um meio de superação. É ela que mostra o valor do menino.

- Cavalo é a potência de Ser que eleva o inconsciente. - A queda do cavalo são os momentos de fraqueza durante o percurso.

- O choro é a dúvida de ser capaz.

- Coragem é pedir ajuda e ser sincero consigo mesmo. - A tempestade mostra a pequenez que o menino é.

- O Cavalo alado é o poder de superação tolhido pela pressão dos que se acomodaram.

- A casa seria a segurança, mas isso está dentro do menino e não fora dele. Não importa mais a casa. Ele se aproximou dele mesmo.

- O Céu estrelado é o tempo…

 

Mhauro Garcia 

Psicanalista


sexta-feira, 2 de maio de 2025

A Distopia Psíquica na Pós-Modernidade

 


A confusão mental, a dor na alma, a loucura de ideias e toda sorte de inadequação ao estado de bem-estar e saúde mental, de fato, são decorrentes de uma distopia psíquica. Um lugar nenhum que é real pela forma como é representado nos comportamentos e nos transtornos mentais. Ou seja, trata-se de um íntimo que assimilou a opressão, a privação e o desespero, resultando em problemas psíquicos.

Para os mais vulneráveis, a tendência é que a cada momento a distopia psíquica prevaleça para promover seu caos íntimo, repercutindo nas relações interpessoais. Contudo, de acordo com a intensidade da experiência vivida, a pessoa consegue ou não administrar a sua distopia psíquica. Ademais, felizmente, saímos da distopia para as tópicas de Freud, sendo possível compreender e trabalhar na economia psíquica. Ou seja, da origem e dos processos emocionais como uma resposta às regras e imposições externas.

E por falar em regras impostas, o que é válido, qual o caminho para cada um se aproximar de sua utopia, de seu lugar ideal? Eis a complexidade e a singularidade de cada questão, de cada pessoa; que nos revela a impossibilidade de aplicar modelos prontos para conduzir a uma solução distinta.

No entanto, existem algumas recomendações que servem para todos: Admitir sua dor, ser sincero com você mesmo; Reconhecer a necessidade de auxílio e ir buscar; Ter determinação, perseverança para acabar a origem da dor. Lembre-se que sua dor não se limita a ela, mas ela repercute e causa novas dores. Ela não é sua amiga!

O mais interessante é que nesse percurso de “cura”, por causa de uma dor, tantas outras são dissolvidas tornando a pessoa noutra pessoa. A tal ponto que a causa que a levou buscar uma solução já nem tem mais tanta força.

Contudo, ainda sobre a distopia psíquica, o grande poder de controle sobre ela é a consolidação de seus referenciais, ajustados às dimensões de suas relações interpessoais. Exatamente, devemos lembrar que não existe Ser Humano sem a convivência em grupo. Aliás, sou definitivo em afirmar que o estudo da psique sem a sociologia, se transforma em biologia.

Mhauro Garcia
Psicanalista

Pacto Brasil e a Integridade Empresarial

 


A Integridade Empresarial é uma proposta extraordinária para o Estado do Ceará. Não somente pelo fato de trazer uma necessidade emergente de mudança no trato com a prática organizacional, mas, principalmente, pelo fato de, inerentemente, tocar no modelo mental de toda uma classe que opera na transformação e no progresso da sociedade.

Sim, é do modelo mental que decorrem os procedimento e os comportamentos, o qual está subordinado à visão de mundo. Essa visão que nos trouxe à essa realidade moldada por uma receita sistêmica viciada, alienígena e autofágica.

Com foco prioritário nas micro, pequenas e médias empresas, iniciou-se uma proposta de transformação que, mais do que seguir procedimentos padronizados, deverá alcançar, de forma sine qua non, o cuidado sobre como se trabalha os referenciais coletivos que formam a ideias, os pensamentos e os propósitos. 

Para isso, a abertura para a compreensão desse pacto necessita quebrar o antigo modelo, cujo retorno não mais se fixará com a exclusividade do pragmatismo sustentável, mas incorporará a abstração pessoal na construção mútua de uma nova cultura.

Portanto, o foco da transformação deve ser e tem que ser na pessoa. É a pessoa que consolidará uma cultura que, em sua plena realização, "dispensará" o controle de modelos prontos. É nesse momento que se enterra a premissa de que não existe sociedade, mas indivíduos. Ao invés do salve-se quem puder e como puder, será o salvemo-nos a nós dessa forma. Afinal, o ganho da transformação é para todos e além.

O mais interessante é que um dos caminhos para consolidar esse modelo é o cuidado com o desenvolvimento, não somente por meios de formação padronizada, mas, principalmente de forma personalizada, com o cuidado pessoa a pessoa, para que este retorne à perspectiva de grupo de forma íntegra. Por isso, vejo como solução um PGR específico para a NR1, que trata do bem-estar e da saúde metal dentro das organizações.

Interessante é que, de fato, as empresas contribuem fortemente para a cultura das relações entre pessoas, procedimentos e comportamentos. É das relações produtivas que se irradia os horizontes. Sem dúvida, é uma excelente estratégia.

Mhauro Garcia -
Psicanalista